terça-feira, 8 de julho de 2014

Do bom tempo ao peixe real e o adeus ao Flecha

- Que bonito dia.
- É verdade, devem estar uns 26 ou 27º.
- Olha que não, hoje vai bater nos 28!
- Vi nas notícias que só amanhã chega aos 28º, hoje anda pelos 26, 27.
- Mas está vento.
- Sim. É um bocado chato.
- Mas aqui em Lagos é normal. Olha, está bom é para a pesca.
- E que sabes tu sobre isso? Nem sabes nadar.
- Ouvi um senhor a comentar. Levantou-se às 5 da manhã para ir pescar.
- E apanhou alguma coisa?
- Não sei, não o vi chegar. Mas o pai também gosta de ir à pesca.
- Nunca fui pescar, acho que não ia aguentar. Horas de cana na mão e não trazer nada para casa.
- Isso deve ser consoante as marés e o isco. Ou diz-se isca?
- Iscas é fígado. Ainda no outro dia comi. Fritas. Não é dos meus pratos favoritos mas até soube bem.
- Pois. Prefiro mesmo peixe grelhado.
- Também eu. Hoje tenho uma sardinhada ao jantar. 
- Espectáculo. Peixinho grelhado com este calor, bem regado a cerveja fresca ou um bom vinho verde.
- Era bom mas estou a trabalhar e vou ser eu a servir as bebidas. Consigo comer qualquer coisa mas beber é mais difícil.
- Ah pois, tem de haver prioridades. Sabes quem também comeu peixe?
- Quem?
- Uma garoupa. Saiu em vários jornais.
- Não me digas que foi o Ronaldo?
- Não. Foram os reis de Espanha. Foram almoçar com os ilustres portugas e comeram garoupa.
- Eu tinha-lhes dado cherne. Como símbolo da democracia!
- Deixa de ser implicativo. Eles nem iam perceber.
- Olha, por falar em espanhóis, já viste que o Di Stefano morreu?
- Sim. Vi no Facebook. Também já tinha alguma idade.
- Sinceramente, nunca gostei muito dele.
- Por ser espanhol?
- Também. E por ter sido adversário do Benfica na final de 62.
- Mas o Benfica ganhou e ele nem sequer marcou nenhum golo.
- Está bem. Mas era inimigo.
- Até o Eusébio tinha admiração por ele. Estás a ser implicativo.
- E agora lá em cima era o Monstro Sagrado e o Pantera Negra juntarem-se e obrigarem o Flecha a ver essa final vezes sem conta.
- Pronto, já vi que estás de mau humor. Até amanhã.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Di Maria, o melhor jogador feio da actualidade


Orelhudo, magricela, desengonçado e trapalhão, Angel Di Maria, Angelito, Di Magia, Triki Triki (alcunha que vem dos tempos em que jogava no Rosario Central) ou Fideo (noodles, se preferirem), o 7 da Argentina, o 22 do Real Madrid, o melhor jogador feio da actualidade.

Há uns meses lembro-me de ter lido, algures num “periodico” do país que fica a Este de Portugal, que Di Maria achava uma injustiça não ver o seu nome na lista de candidatos a melhor do Mundo. Por incrível que pareça, ou talvez por ainda me lembrar das suas arrancadas pelo corredor esquerdo daquele que foi o melhor Benfica que conheci, deu-me para concordar com ele. E hoje ainda concordo mais.

O tímido jovem magricela que aos 19 anos chegou a Lisboa tem feito de tudo para escrever o seu nome na história do futebol moderno. Contudo, conquista após conquista, golo após golo, a cada assistência que efectua com os seus magistrais passes de letra (diz o Angelito que tem mais confiança em cruzar de letra com o pé esquerdo do que em cruzar com o pé direito), o seu nome continua a não encher capas de jornais. Excepto em Rosario, cidade que o viu crescer e que ainda hoje acompanha a carreira de um dos seus maiores, se não o maior, prodígios.

Mas o Angelito nunca será um dos melhores do Mundo. Ou, reformulando, nunca será um dos melhores do Mundo para os media porque, para mim, já o é há muitos anos.

Para se ser um dos melhores do Mundo não basta jogar bem ou ganhar títulos ou bater recordes. Isso são apenas gotas num oceano. Para se ser realmente um dos melhores do Mundo é preciso que alguém diga que nós somos bons. É preciso que se escrevam crónicas e artigos de opinião, é preciso que alguém debata ou opine num qualquer programa onde os Freitas Lobos e Ruis Santos desta vida debatem e opinam, é preciso que os editores coloquem os nomes e as fotos nas capas dos jornais. Sem isso, muitos jogadores banais seriam isso mesmo – jogadores banais. Mas Angelito não tem imagem, ninguém fala nele, é um jogador feio. Foi o melhor jogador dos Jogos Olimpicos 2008, foi o melhor na final da Champions de 2014, foi o melhor ontem contra a Suíça. Mas não chega. O inútil do rato, que mais não fez em 120 minutos que um passe para golo, é sempre o destaque, mesmo tendo esse golo saído do pé esquerdo do feio.


O feio, o tal que não merece ser considerado um dos melhores do Mundo, ataca, defende, faz picos com e sem bola durante 90 minutos, 120 se for o caso, passa, desmarca, desmarca-se, luta, rouba bolas, fecha espaços, cruza, remata. Não é o melhor jogador argentino porque existe Messi, joga nos “blancos” e aí tem o Ronaldo, é patrocinado pela Adidas e leva novamente com o rato. Talvez se tivesse orelhas mais bonitas, ou se tivesse mais carisma, ou se desse mais entrevistas. Jogar bem não chega para que o feio Angelito possa ser um dos melhores do Mundo. Para mim, que gosto de ver futebol sem comentários, é dos jogadores que mais gosto de ver, é decisivo nas suas equipas e isso basta-me.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Sonhos pela manhã

foto "sacada" do Google, via blog intrusanacozinha

Sonhos. Quem não tem sonhos? Sonho no sentido abstracto, ou no sentido que vocês quiserem. Sonhos. A dormir, acordados, ao pequeno-almoço com café, sonhos. 

Já sonhei tanta coisa. Por norma, sonho acordado. Dormir é para descansar e repor energias. Raramente me lembro de ter passado a noite em aventuras, não consigo adivinhar o futuro enquanto ressono, não me recordo de ter caído de um escadote ou de um poço durante a noite. Sonho acordado. Sobre muita coisa, sobre tudo, sobre nada. Todos nós sonhamos, sonho eu. Fui uma criança normal, mais bonita e inteligente que as demais mas, mesmo assim, normal. Sonhava ser jogador de futebol, talvez ainda sonhe, maldita realidade que me deu dois pés esquerdos e a mania de ser dextro. Sonhava ter um Subaru Imprenza, igual aos jogos de Playstation, azul com estrelas doiradas. Já o confessei aqui neste blogue, tenho orgulho em ter sonhado ser um piloto de rallies ou apenas um azeiteiro. Sonhava ser rico e não precisar de trabalhar, descobri que não trabalhar é fácil mas o mundo capitalista não me deixa ser rico. Nota do autor: jogar no Euromilhões pode ser tentador para quem não gosta de trabalhar mas já gastei para cima de 20 euros e depois desisti.

Hoje em dia, continuo a sonhar e a viver entre sonhos. Sonho com o quê? Com tudo. Sonho com uma profissão de sonho, com várias até. Sonho com carros e mansões e vivendas e férias e viagens e idas à bola, muitas idas à bola, muitos carros, nada de Subarus. Desculpa, amigo Subaru, foste trocado por um modelo alemão que me permita vestir um fato clássico e usar óculos da Ray Ban. 

Enfim, sonhos...

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Clã dos homens-pantera


Desde o início dos tempos, homens-pantera e homens-leão lutam pelo mesmo território: Armalok. Kali é um jovem homem-pantera, filho do falecido Kapito, primeiro rei de Armalok e comandante do maior exército que a savana já conheceu. Mas Kali pouco sabe, nasceu em tempos de paz e as únicas lutas que conhece são as que trava contra os seus amigos, no seio de um pequeno grupo de refugiados. O seu pai foi executado numa emboscada levada a cabo por Goti, o traidor.

Os sobreviventes da emboscada que vitimou o primeiro rei de Armalok vivem escondidos no meio da selva, escondendo-se entre antigas cavernas, fugindo sempre que os batedores de Goti se aproximam. Kali não sabe porque vagueiam pela selva, parando poucas semanas em cada novo esconderijo. Está mais preocupado em ser o mais forte entre os seus amigos e em aprender tudo o que Famil, o líder do grupo e o mais velho entre os sobreviventes, lhe ensina. Está cada vez mais forte, mais ágil e não perde uma oportunidade para desafiar os mais velhos. Em breve será o mais forte do grupo! Só de pensar nisso, os seus olhos negros brilham e o seu pêlo, negro como a noite, até parece crescer. Os seus amigos já o respeitam e todos dizem que um dia será um grande líder. Ele sorri e sacode as orelhas. As jovens fêmeas fofocam às escondidas, dizendo como ele se está a tornar belo e forte, mas ele não se interessa por elas. Só quer lutar e pregar partidas. Logo pela manhã, Kali procura o seu mentor, que o espera no seu posto de vigia. Há quem diga que Famil não dorme, está sempre atento. O jovem homem-pantera não acredita mas a verdade é que nunca apanhou Famil a dormir ou sequer desprevido. O velho mentor sabe sempre quando alguém se aproxima.

Uma noite, Kali desrespeitou as ordens para ir deitar-se e tentou enganar Famil. Levantou-se da sua cama, um monte de velhas folhas de árvore-sol, a árvore sagrada de Armalok, e aventurou-se pela selva à procura de Famil, com muito cuidado para não pisar os seus colegas e evitar qualquer barulho. O seu mentor estava sentado em cima de um rochedo, à entrada da passagem que dava para a caverna. Camuflado pela noite, apenas a sua barba branca brilhava ao luar. Kali misturou-se na vegestação e foi-se aproximando devagar. Já estava a menos de cinco passos e num salto era capaz de atacar o seu mentor.
- Sai daí, Kali. Devias estar a dormir junto dos outros.
- Bolas! Como sabes sempre quando me aproximo, não fiz barulho nenhum!
- Pensas tu, não foste assim tão astuto. Sei da tua presença desde que chegaste junto da passagem, ainda és muito desastrado. Para além disso, fugiste ao banho que Arlip preparou e estás a tresandar. - olhou então para trás, para ver melhor a cara de desilusão do jovem Kali - Senta-te ao meu lado. Quero contar-te uma história.
- Boa - Kali saltou para junto do rochedo e sentou-se - adoro as tuas histórias.
- Também fui mentor do teu pai. Eu e ele éramos muito amigos, era como um filho para mim - Kali adorava ouvir histórias sobre o seu progenitor. Sabia que ele tinha sido um guerreiro temível e um grande rei. Famil continuou - ele era tal como tu, queria ser o mais forte mas tinha dificuldade em ouvir os conselhos que lhe davam. Na nossa antiga aldeia, havia uma estátua sagrada, feita à mão pelos nossos antepassados, que estava na tenda do grande chefe. Uma noite, o teu pai esperou que todos se deitassem e tentou esgueirar-se pela entrada da tenda do grande chefe. Conseguiu entrar na tenda, sem fazer barulho, e roubou a estátua sem que o grande chefe acordasse. Estava eufórico quando saiu da tenda, com o troféu da sua aventura nas patas. Porém, eu já esperava por ele cá fora. Quase deu um grito quando me viu. Calmamente fui ter com ele e disse-lhe para devolver a estátua antes que arranjasse problemas. Ele era muito teimoso, tornou-se um guerreiro fantástico quando começou a ouvir os conselhos que lhe davam.
- Como conseguiste apanhá-lo? Tu próprio disseste que ele não tinha feito barulho. Nem o grande chefe se apercebeu!
Famil esboçou um sorriso.
- Sabes, Kali, quando os motivos que nos regem não são puros, acabamos por ser sempre descuidados. Um dia, quando os teus motivos forem puros, vais conseguir enganar-me. Até lá, deves ouvir os meus conselhos.
- Continuo sem perceber como fizeste isso...
- E agora tenho um conselho para ti. - antes que Famil falasse, Kali virou as costas e regressou à cama. Já conhecia esse conselho...

Uma passagem secreta

Às vezes sou uma pessoa complicada. Só às vezes. Ontem à noite, depois de jantar (que por acaso estava mesmo saboroso - lombo no forno com batata, tudo produtos caseiros, apenas azeite, sal e um pimenta q.b. a temperar... hum, delícia), fui ter com uns amigos. Não posso dizer que fui ao café porque aquele sítio tem sete definições diferentes nos toldos à entrada, não posso dizer que fui beber café porque bebi duas médias, não posso dizer que fui beber uma cerveja porque na mesa estavam cafés, Pepsi, chocolates quentes... Enfim, saí de casa por uns tempos.

E nesse café/beer lounge/snack-bar/sei lá o quê mais é preciso percorrer três divisões, passar à porta da cozinha e não entrar na arrecadação, atravessar um corredor com pouca luz e rezar para que não esteja nenhum estripador escondido num canto escuro, para ir ao WC verter líquidos. Eu arrisquei-me, não por opção mas por necessidade. Contudo, a viagem não correu tão bem como esperava. A meio da viagem, as luzes começaram a rodar à volta da minha cabeça, na parede abriu-se um portal e eu fui sugado para outra dimensão.

Acordei com a cara na lama, ao lado de um lago. Levantei-me, sacudi a roupa e olhei em redor. Ao longe avistei uma nuvem de fumo. Tive receio mas fui nessa direcção, onde há fumo há fogo, onde há fogo costuma haver gente. Caminhei até lá, sempre com o lago à minha esquerda. Paisagem magnífica, água cristalina, do meu lado direito apenas floresta, relva verde debaixo dos meus pés. Não havia ninguém junto da fogueira, apenas um caldeirão com água a ferver e um peixe espetado num pau, um pargo, pensei eu. Tive medo de chamar por alguém, podiam ser bandidos ou foragidos. Já li muitos livros e essa hipótese costuma ser a mais frequente. Deambulei pelas redondezas, apenas se ouvia o canto dos pássaros e as folhas das árvores a dançar ao som do vento. Não fui de meias medidas, tinha fome e tirei o pargo de cima da brasa. Era saboroso, faltava-lhe apenas uma pitada de sal. Comi num ápice, com apetite e com medo que os donos do peixe surgissem do meio da vegestação. Tal não aconteceu e tive de seguir em frente, à deriva, à procura de uma aldeia ou de alguém que me pudesse explicar onde me encontrava. Continuei a passear à beira do lago, estava maravilhado com a clareza da água. Soubesse eu nadar e ia dar um mergulho, estava calor, o sol brilhava bem alto, o dia ainda ia a meio. Ouvi vozes, parei, escondi-me atrás de um pedregulho e fiquei à espreita. Um grupo de três homens se aproximava da fogueira. Pareciam bandidos, roupas sujas e rasgadas, o pargo devia ser o almoço deles. Encolhi-me o máximo que pude e tentei suster a respiração. Um deles, o mais baixo, gritava improprérios indecifráveis, possivelmente contra o ladrão que lhes tinha roubado a iguaria. O meu coração batia a mil, estavam a menos de duzentos metros e conseguia sentir-lhes o cheiro, já não deviam tomar banho há alguns dias. Eles continuavam a olhar em redor, à procura de alguém, à minha procura. Olhei na direcção contrária, a floresta estava a poucos metros e, uma vez aí embrenhado, seria difícil me encontrarem. Esperei pelo momento certo e dei uma corrida para o meio das árvores. Nem olhei para trás para confirmar se a minha fuga tinha sido bem sucedida, corri o mais que pude, sem olhar para trás, evitando rastos ou indícios de velhos caminhos. Corri durante segundos, minutos, vários metros, pelo meio das árvores e do mato. Até que parei numa clareira. Não tinha noção de quantos metros tinha percorrido, talvez quilómetros. O lago tinha ficado para trás, nem sinal dos bandidos. Baixei a cabeça e inspirei o máximo de ar possível, só entei reparei que estava ofegante. Precisava descansar, ninguém me tinha seguido, tentei escutar mas o bater do meu coração era muito forte. De repente, senti uma picada no peito, outra picada no ombro, olhei para baixo, tinha duas setas espetadas na minha carne. Tentei gritar mas faltaram-me as forças, cai de joelhos, as folhas começaram a agitar-se, alguém falou e duas sombras entraram na clareira. Duas mulheres, cabelo loiro a cair pelas costas, orelhas pontiagudas, uma delas empunhava um arco e uma seta apontada na minha direcção, senti a vista turvar, tentei levantar um braço e dizer que não lhes queria fazer mal mas não tive forças, tombei para a frente e fechei os olhos.


Quando acordei, estava à porta do WC. Achei estranho. Nem verti líquidos, dei meia volta aos sapatos e dei de frosques. Acho que tão cedo não volto lá. Hoje reparei que tinha uma ferida no peito, não deve ser nada...

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Apetece-me

Hoje apetece-me ter os meus 16 anos e sair à noite.

Só hoje, só por uma noite, ter 16 anos e tudo à volta ser igual ao que era. Os mesmos bares abertos, os mesmos preços, as mesmas companhias, as mesmas roupas, tudo. Ténis grandes, calças largas, t-shirt vermelha com um símbolo parecido ao da O'Neill, casaco laranja com capuz, 10 euros na carteira.

Paragem obrigatória no Lion. A primeira bebida da noite tinha de ser o "metro". Nunca percebi o porquê de se chamar "metro". Não andava debaixo da terra nem tinha cem centímetros. Era uma vasilha com cerca de 2,5L de cerveja que vinha para a mesa, e tinha um manípulo para nós irmos servindo os nossos copos de imperial. Na maior parte das vezes era mais espuma que líquido mas a malta adorava. As meninas bebiam jarros de daiquiri. Certas noites havia vontade de jogar "drinking games". Entre rapazes, havia sempre conversas porcas e a palavra "mamas" entrava em todas as frases. Literalmente, em todas as frases. O meu jogo preferido era o "Eu nunca". "Eu nunca vi mamas". Quem já tivesse visto mamas, bebia. Ao fim de três copos, o jogo começava a ficar mais interessante e terminava sempre com histórias sobre paixões platónicas ou fantasias. A melhor de todas foi quando descobrimos que um dos membros do grupo tinha fantasias com a minha ex-namorada. Gozo geral, mas isso foi noutro bar e a noite tinha começado com um copinho de saké para cada um. Depois íamos a outro bar para ouvir rock e comer pipocas. Já fechou. Há cerca de sete anos que não como pipocas nas saídas à noite. O tempo ia passando. Às duas, a noite estava a terminar. Passávamos na praça para pedir um cachorro-quente, com tudo a que tínhamos direito. Milho, cenoura, ketchup, maionese, cebola, batata palha. Não gostava de cebola na altura, contudo, já que estava incluída, vinha na mesma. E íamos comer para a avenida, a ver o rio e a contar histórias. Por vezes, histórias inventadas ou ouvidas nos corredores da escola. Falava-se das miúdas que tínhamos adicionado no hi5 ou no msn. Os mais "experientes" tentavam sempre gabar-se e dar umas dicas. Em cada rapaz havia um Dr. Love! Estava na hora de ir para casa. Os horários ainda eram apertados e não podíamos fazer barulho ao entrar em casa.

Eram assim as noites, por norma uma vez por semana, ao sábado. Hoje apetece-me voltar atrás no tempo. Ter 16 anos outra vez, tudo igual, só hoje, só por uma noite...

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Considera-te avisada, Angela


A limousine onde seguia a mulher mais poderosa do mundo teve um acidente. Um velhote, dizem, embateu no veículo onde seguia a gorda alemã mas, infelizmente, não houve feridos a registar. O governo português ainda não comentou o assunto mas eu, qual Al-Qaeda, quero, em nome de todos os portugueses, reivindicar este atentado!

O mundo está em crise e em guerra e a fome atinge milhões de pessoas e muitos milhões continuam sem acesso à Internet. Contudo, na Alemanha está tudo bem e a culpa é da Angela! Por isso, e para que ela comece a ter mais cuidado quando quiser lixar os portugueses, estou a reivindicar o atentado de ontem contra a chanceler alemã. Para além do mais, disseram-me que o mister Joachim Low está a pensar convocar a chanceler para jogar contra Portugal no Mundial 2014. Apesar de ir jogar com o 10 do Özil (foi a Angela que escolheu o número porque não curte de turcos e quis mostrar ao Özil que quem manda ali é a gorda), vai jogar ali na defesa a descair para o lado do Ronaldo, que, como se sabe, é 90% da equipa lusa. Como o Ronaldo trabalha em Espanha, ela vai criar um imposto especial para futebolistas portugueses a jogar no Real Madrid com o número 7 e durante o jogo vai penhorar a mansão do Ronaldo, o museu na Madeira, os ténis novos do Cristianinho e os brincos do nosso capitão. Este é o plano dela. Mas como eu descobri tudo a tempo, já enviei o velhote dar-lhe um toque só para ela ficar avisada.

Qualquer dia ficas sem água em casa, Angela! Toda a gente sabe que as mulheres levam muito tempo a arranjar-se, e as gordas ainda mais. Duvido que a Angela consiga sair à rua com ramelas nos olhos e o cabelo todo despenteado. Sem sair à rua também não pode vir criar novas medidas para tirar dinheiro à gente. De nada, Portugal.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Questionar a cultura

Esta semana apetece-me questionar a existência de tudo! Estou a brincar, apenas a existência deste blogue. Vou explicar: fui entrevistado para um trabalho da universidade. Muito simples, queriam um bloguer sem sucesso e vieram ter comigo. Apreciei. E uma das perguntas pedia para falar dos textos que mais tinha gostado de escrever. O que me dá mais gozo escrever? Estórias. Reais ou inventadas mas estórias. Gosto de narrar uma estória à minha maneira. Se for uma estória antiga e rural, onde fique bem colocar vocábulo que aprendi quando era um petiz numa família de gente ligada à terra, então sinto-me mesmo bem.

Há cerca de dois anos, noutro blogue, escrevi um texto sobre cultura onde explorava a cultura enquanto palavra. Todas pessoas têm cultura, embora de áreas diferentes ou de vertentes diferentes. Cultura pode ser instrução ou estudo, como cultura ligada ao mundo das artes, por exemplo. Mas cultura também pode ser lavoura, pode ter a ver com a terra e com produtos naturais, cultivo. É simples.

E nesse texto referi a minha avó para desmistificar um pouco a cultura. A minha avó é a melhor pessoa do mundo. Quando lá vou almoçar ou jantar, descasca a fruta para eu comer. Em casa nunca como fruta, lá marcha sempre um pero ou uma maçã. Contudo, é também uma pessoa muito culta. Já na casa dos 70, sabe ler por esforço próprio e sempre trabalhou no campo. Tem essa cultura. O resto, adquire nas revistas e nos livros que os filhos e netos deixam lá em casa. Nunca foi ao teatro, nunca foi ao cinema, nunca leu Marx ou Descartes mas sabe tudo sobre plantar batatas, sobre a monda do arroz, sobre o cultivo de morangos ou laranjas. Vendo bem, tem muito mais cultura que eu, e eu tenho um papel que diz "licenciado". E sou desempregado! O que é cultura afinal? Para que serve? Vou comer uma fatia de pão e beber um copo de vinho. Pão cozido pela avó no forno a lenha e vinho destilado pelo avô na adega. Até nisso sou um leigo, como e bebo e não sei fazer nada!

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Que faço aqui?

Ontem, por culpa de uma rapariga que conheço (não vou chamar amiga porque ela depois fica a pensar coisas e eu nem curto muito dela), revivi um pouco do meu passado e lembrei-me do porquê, da razão de ter criado este blogue.

Aqui tenho de abrir outro parêntesis sem parêntesis, eu sei que sou um jovem de 24 aninhos e meio, um gaiato, mas já vivi 24 anos! E isso são muitos meses, 294 para ser mais exacto. Sabem quantas coisas se podem fazer em 294 meses? Também não sei mas calculo que sejam muitas, imensas, bués! Por isso, tenho legitimidade para dizer que tenho um passado, tal como tenho um presente e espero ter um futuro! Agora o leitor pergunta (voz esganiçada porque os leitores para mim têm voz esganiçada) "como se pode abrir parêntesis sem parêntesis?". Caro leitor, companheiro, amigo, não sou nenhum génio da gramática para lhe explicar isto contudo, e como este é o meu espaço, posso imaginar que é possível fazer isso e faço. Se reparar, abri parêntesis ali atrás e você nem se apercebeu. Tal como altero os tempos verbais, falo consigo, contigo ou convosco e no momento a seguir volto para o meu monólogo. Não me venham com morais de escrita, Saramago não sabia usar pontuação e ganhou um Prémo Nobel, a partir daí considero uma asneira subestimar alguém que não sabe escrever. Quando vejo a garotagem escrever com "x" e "k" no meio das palavras ou atirar biqueiradas com força na língua de Camões, já não choro, pode estar ali o próximo Saramago. E sim, comparei Saramago a um adolescente estúpido que "axa k sabe tipo xcrever e mndar sms fixes pro ppl"!

A razão de ter criado este blogue? Eu falei nisso? Peço desculpa, se calhar precipitei-me. Não existe razão, os génios são incompreendidos e podem realizar acções sem nexo, são génios. Desculpem? Ouvi alguém dizer que eu não sou um génio? Lá está, somos incompreendidos. Ia lá eu ter uma razão para escrever um blogue. Escrevo porque me apetece, sobre o que me apetece e quando me apetece! Agora dizem-me que sou um sacana para os leitores e que não penso neles? Errado, companheiros! Penso muito em vocês, simplesmente confio que vocês continuam a vir aqui porque gostam de mim como eu sou. Essa é a minha magia, a minha mística - quero que os leitores venham cá porque gostam da forma como eu escrevo e não porque gostariam que eu escrevesse assim ou assado. Felizmente Portugal tem excelentes escritores e alguns bloguers muito bons. Eu sou apenas diferente. Sou a RTP2 dos blogues - "Só vê quem quer ver"! Não me interpretem mal, não sou convencido, sou um génio. E adoro que vocês venham cá. As vossas visitas têm um significado para mim.

Portanto, podem continuar a contar com algum humor parvo, algumas críticas infundamentadas e textos estúpidos. Quero que saibam que, quando estou aqui a escrever, posso ser um actor mas estou a representar-me a mim próprio. Nas minhas histórias e estórias, nos meus dramas do dia-a-dia, nas minhas revoltas contra tudo e todos, sou eu. Até quando parto para o mundo da imaginação continuo a ser eu. E esse "eu" adora...

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Porquê de voltar

Dizem que o blogue é um diário online. Pessoalmente, nunca tive um diário de caderno e lápis mas percebo o conceito. Percebo a ideia de querer guardar algo que para nós teve alguma importância. Depois há aqueles que fazem dinheiro com isto e deixa de ser um bloque mas sim um negócio. Infelizmente, não é o meu caso e por isso, fiquei uns tempos sem escrever aqui porque não vi importância em nada dos últimos tempos.

Nunca pensei que ser desempregado fosse tão difícil. Quando estamos de férias ou de folga, temos imensas coisas para fazer. Ir ao banco, estar com aquele ou com o outro amigo, visitar um primo recém-nascido, ir beber café com um amigo de infância, ir visitar a mãe ou a avó, tirar umas férias, jogar um videojogo, ver um filme, apanhar uma grande bebedeira... Coisas para fazer. Estar desempregado é difícil. Ao fim de poucos dias já não há coisas para fazer e cansamos o intelecto à procura de coisas para fazer ou de coisas que podíamos estar a fazer e não estamos. Por exemplo, no outro dia perdi duas horas a pensar em ir ao banco. Não fui ao banco e fiquei em casa a ver Fox Life enquanto pensava "neste momento podia ir ao banco", e foi assim das 13h às 15h, até ao fecho do banco (no Algarve os bancos fecham às 15h). Mas foram duas horas em que, se estivesse de férias, tinha ido comprar uma t-shirt de manga cava, tinha ido beber uma cerveja com um amigo e ainda tinha visto um filme. O tempo passa de forma diferente e é muito menos produtivo. Não consegui ainda habituar-me a isto de ter 24 horas sem nada para fazer durante tempo indeterminado. É aborrecido e desmotiva. Queria eu fazer algo antes e não tinha tempo e agora tenho tempo e não faço algo.

E agora perdi uns belos minutos a tentar explicar algo que não é fácil de explicar porque é difícil. Faz sentido? Não me parece. Mas é. Estar desempregado, meus amigos, não é para qualquer um. Vou tentar dar um sentido ao meu tempo livre para ganhar coragem e motivos para martelar nas teclas. Nem tenho bebido vinho, vejam lá!