Faltam
poucas horas para o jogo e não penso nisso, não sinto ansiedade, não me
rabeiam borboletas na barriga, não estou confiante, não estou com um
mau pressentimento, aliás, acho que não sinto nada, é-me indiferente.
Sou
português, claro que sou, estupidamente orgulhoso de tudo e
envergonhado com quase tudo. Acho que ser português é um bocado disso,
ter orgulho e ao mesmo tempo vergonha. É gritar bem alto
"PORTUGAAAAAAAAAAAAAL" quando batemos a Inglaterra nos penáltis, é
espumar de raiva quando o Charisteas marca o golo, é chamar burro ao
Postiga quando falha de baliza aberta, é aplaudir o Postiga quando marca
o golo da vitória, é criticar o Paulo Bento quando as substituições
correm mal e dar-lhe os parabéns quando o Varela faz o 3-2 à Dinamarca!
Ser adepto é isso, ainda para mais da equipa de todos nós. Odeio perder,
detesto empatar, o que eu quero mesmo é ganhar, sempre, se possível, o
máximo de vezes que conseguirmos, marcar dez golos por jogo, com o pé,
com a cabeça, com o rabo se for preciso, mas marcar, muitos, mais que o
adversário, marcar mesmo quando o jogo está parado só pelo prazer de ver
as redes contrárias a abanar com a bola lá anichada!
E
hoje, não sinto isso, não sinto nada. Cinco jogos sem vencer, entre
amigáveis e qualificação. Já estou farto disto, começo logo a fazer
contas de matemática, e eu era um aluno razoavelmente bom a matemática.
Estamos a muitos pontos da Rússia, do bilhete de avião para o Rio de
Janeiro. Eu, muito provavelmente, não vou lá, mas quero que o Cristiano
Ronaldo, o Nani, o Postiga, o Rui Patrício, o Fábio Coentrão e os outros
todos vão lá por mim, nem precisam de trazer uma lembrancinha especial
para mim, tragam o troféu de Campeões do Mundo para todos nós, não quero
autógrafos, não quero fotografias, isso posso perder ou posso esquecer
nalguma gaveta da cómoda, quero títulos, daqueles que ficam para sempre
na história, ou na Wikipédia. Mas hoje não penso nisso. Azerbaijão...
não me lembro de nenhum jogador, eu que jogo FM, eu que passo horas a
vaguear pelo zerozero, não me lembro de ninguém. E pouco importa - é
para ganhar! Lá no fundo, à medida que se aproximar a hora do jogo, o
meu coração vai começar a palpitar mais depressa, distraidamente irei
ligar a televisão e cinco minutos antes das cinco já estarei com a mão
no peito a cantar baixinho o hino da minha Pátria, baixinho para só eu
ouvir, mesmo que grite eles não ouvem lá em Baku. Tenho um treinador de
bancada dentro de mim, já imaginei diversos onzes para entrar em campo,
não há Ronaldo, não há Nani, outros parecem não existir, outros ficaram
em casa, outros estão cansados ou desmotivados. Ai se eu não tinha
puxado as orelhas ao Bruno Alves e ao Patrício, mesmo sabendo que eles
medem mais meio palmo que eu, nem o Ronaldo escapava. Depois de um jogo
daqueles ninguém escapava. Mas isto sou eu a divagar e a imaginar.
Metia
o Patrício na baliza, merece, na defesa só metia o Pepe, o maior
português da selecção nascido em Maceió, atirava o Neto às feras,
deixava ficar o João Pereira por falta de concorrência e chamava o
Antunes (o meu menino bonito do FM, nunca me falha, sempre certinho),
metia o "tampão" Custódio e lançava o Paulo Machado, campeão na Grécia,
tem de estar motivado, havia de comer a relva para mostrar que merece
ser chamado mais vezes, depois o Vieirinha na direita, há anos que digo
que este rapaz tem lugar de caras nesta selecção, pode ser uma pancada
minha mas vejo muito talento naqueles pés, o Pizzi, estrela de um
Deportivo em crise, Danny, já está recuperado e é irreverente, e na
frente Postigol, obviamente. Há quem não goste dele, eu próprio, mas
marca golos como não temos mais nenhum para o fazer. Leva quatro golos
no apuramento, feios ou bonitos, mas ele sabe marcá-los e é esse tipo de
avançado que faz falta. E contra este Azerbaijão tínhamos de golear,
ganhar por poucos é bom contra a Espanha, contra o Brasil, não contra o
Azerbaijão! Sei que o Paulo Bento não me ouve, aliás, sei que dos
jogadores que eu disse apenas Patrício, Pepe, João Pereira, Pizzi e
Postiga devem jogar de início. Sei que a primeira substituição vai ser
tirar um extremo, possivelmente o Varela, depois refresca o meio-campo
e, se estivermos a ganhar, troca o Postiga pelo Hugo Almeida. E eu a
sofrer por fora, como se não sentisse nada...