Se para Marinho Pinto o ordenado de um deputado é "indigno", como será que ele classifica o ordenado de um trolha ou de um caixa de supermercado? Cavaco Silva também se queixa de ganhar apenas 10 mil euros por mês e Marinho Pinto acha isso muito pouco. Que achará Marinho Pinto de um reformado que trabalhou uma vida inteira e sobrevive com duzentos euros por mês e com despesas de saúde a roçar nos trezentos?
É complicado, num país onde todos vivem revoltados, ter declarações destas. Eu até posso tentar perceber o lado do Marinho, porém, a realidade é que em Portugal o salário mínimo não chega aos 12 mil euros anuais (três meses para o Marinho Pinto, portanto). A realidade é que há muitos licenciados e doutorados a receber o salário mínimo (com licenciaturas a sério, a do Miguel Relvas é uma excepção e não deve ser ensinada aos jovens). A realidade é que muitas empresas despedem profissionais com experiência para contratarem estagiários e jovens para fazer o mesmo trabalho e receber menos.
Mas eu não estou aqui para julgar ninguém. Fazer vida de pobre já me ensinou muita coisa. Posso até dizer que tem sido uma benção! Aprendi a cozinhar, lavar roupa e loiça, passar a ferro, aprendi a ir às compras, aprendi a fazer matemática e a gerir as minhas finanças. Descobri que é possível fazer três refeições com um pacote de massa, uma lata de cogumelos laminados, um pacote de natas e 200 gramas de bacon. Duvido que o Marinho Pinto saiba as diferenças entre uma cerveja Cergal e uma Heineken ou a diferença entre um vinho Quinta de Cabriz e um Navegante. Vai buscá-la, Marinho, eu sei!
Em comparação abstracta, posso afirmar que o Marinho Pinto seria incapaz de sobreviver meio ano a receber 500 euros por mês mas eu podia viver à lorde se recebesse 4800 euros. Não quero dizer que sou melhor que o Marinho Pinto mas...
O Marinho Pinto vive na Liga Europa e eu vivo nos campeonatos distritais. Ele contrata um Audi topo de gama e eu contrato um Opel Corsa de 1999, ele contrata um filet mignon e eu contrato umas costeletas do cachaço em promoção, ele contrata Marquês de Borba de Reserva para um jantar agradável e eu contrato JP. E quando é altura de atacar o título com uma mala da Prada para a esposa e uns sapatos da Gucci, eu recorro à formação e volto a usar o cinto da C&A e a t-shirt da Pull & Bear.
Mas o Marinho Pinto tem razão, viver em Lisboa é caro. Com mil euros em Lisboa eu fazia vida de pedinte. E mesmo assim tinha de dividir casa com dois amigos, andava de transportes públicos, jantava em casa e levava o almoço numa caixa de plástico. Ir jantar fora só em ocasiões especiais, cinema via torrent, futebol em streaming e roupa nova só em Outlet. E que Deus me ajudasse se ficasse doente ou se o carro tivesse uma avaria. Despesas extra não entram nas contas.
Estou contigo Marinho! Vamos aumentar o salário dos deputados. Mas só dos deputados. Os pobres estão habituados a viver pobres e podem reagir mal se receberem um ordenado superior a 500 euros por mês.
quarta-feira, 17 de setembro de 2014
terça-feira, 2 de setembro de 2014
Ficas à espera até ao próximo verão
Até um dia...
Havia quatro anos que estavas guardada no roupeiro. A apanhar pó, a ouvir gente a passar no corredor e nem para ti olhavam. Nunca te revoltaste por ficar relegada para segundo plano. Afinal de contas, sempre soubeste que ver a luz do dia era uma situação precária, eras apenas uma ocupação de tempos livres e uma forma de juntar dinheiro para gastar mais tarde em copos e festas e roupa de marca. Mas sempre te mantiveste fiel à espera que o próximo verão chegasse e com ele uma nova oportunidade para saíres à rua. Foste ouvindo histórias da universidade, sonhos de um jovem que em tempos quis ser jornalista, animador de rádio, jornalista desportivo, comunicador desportivo - mesmo sem saber se tal definição existia mesmo, assessor de comunicação. Presumo que nem saibas o que isso é. Apenas conheces os balcões de bar, as arrecadações, as mesas onde os turistas jantam.
Sabes tirar cafés, meias de leite, galões, descafeinados, pingados, cafés sem início, imperiais, finos, lambretas, canecas, tulipas, shandys, panachés, diesel e tangos. Sabes que o inglês gosta de pouca espuma na cerveja e que é sempre útil guardar adoçante no bolso. És do tempo em que o gin era servido em copo de long drink, com gelo, uma rodela de limão e água tónica. Bebida de bife. Nunca esqueceste que os estrangeiros desconhecem o vinho verde e que não se importam de pagar mais por esse vinho tipicamente português. Não tens jeito para fazer cocktails e odeias caipirinhas. Gostas de ter o bar sempre limpo e não dispensas uma boa conversa sobre desporto. Sempre desporto. E os clientes gostam de te ouvir falar. Contar histórias que lês nos jornais e nos blogues. Entretanto, há sempre alguém que te paga uma cerveja só para te ouvir falar e tu continuas, com as tuas lengalengas sobre o Algarve e as belezas de Portugal. Aconselhas uma visita às grutas da Ponta de Piedade, um passeio a Monchique para os mais velhotes, uma ida ao Zoomarine para casais com crianças, ver o sunset em Sagres para os casais apaixonados. E gostas disso. Ficas maravilhada quando te contam coisas sobre outras culturas, outros povos, lugares mágicos que nunca tiveste oportunidade de conhecer.
Estás comigo desde 2005. E nem tivemos um começo fácil. Ao fim das primeiras duas semanas fomos despedidos. Expectável. Ainda nada sabíamos sobre a vida fora dos livros e dos recreios. No ano seguinte tudo foi diferente. Começar novamente do zero mas com outra vontade. Resistimos às garrafas de vinho que não conseguíamos abrir, aos talheres que saltavam dos pratos para o chão, aos copos que escorregavam das mãos, aos gritos do chefe e às brincadeiras dos colegas. Éramos ingénuos e atrapalhados. Fomos resistindo e, com um pouco de sorte e algumas cargas nervosas, tudo correu bem. Crescemos juntos e começámos a gostar de tudo isto. Os bem-educados, os arrogantes, os sérios e os brincalhões, os tesos e os gabarolas, os chatos e os "cinco estrelas". Porém, era apenas uma ocupação de tempos livres. Em setembro começavam as aulas e lá ias para o roupeiro à espera que o verão chegasse.
Este ano, o verão chegou em Agosto e já acabou. Foi curto. Mas soube bem voltar a ver-te. Estás mais velha, mais gasta, um pouco rasgada nas axilas e saltas fora das calças quando levanto os braços. Já não tens a energia de antes e os tempos no roupeiro deixaram-te mais lenta e mais séria. De resto, continuas igual. Ainda consegues processar a informação de várias mesas ao mesmo tempo e continuas a gostar de falar de desporto. Já estamos em setembro e vais voltar para o roupeiro. Nove anos depois, vais continuar à espera do próximo verão. Até um dia...
sábado, 30 de agosto de 2014
Parafusos à deriva
A vida tem destas coisas. Hoje, ao tentar arrumar um guarda-fato lá em casa, encontrei meia dúzia de parafusos e encaixes de móveis. Fiquei curioso e lá fui vasculhar à procura do resto dos materiais. Estava no quarto do meu pai - uma bela cómoda da IKEA. O meu primeiro impulso foi abanar a cómoda, abrir e fechar as gavetas várias vezes e com alguma violência, empurrar a cómoda na esperança que ela se desmembrasse. Não aconteceu. Desisti ao fim de dois ou três minutos.
Mas afinal, porque é que sobram sempre peças quando se monta um móvel?
Acho que pode ser para prevenir que alguém perca peças ou que elas se danifiquem, assim como alguma roupa traz botões extra. Mas não deixa de ser engraçado. Para dizer a verdade acho que sempre que tento arrumar alguma divisão da casa vou encontrado peças perdidas de móveis antigos. Um dia junto tudo e hei-de construir um barco! Ou um baloiço! Ou então há-de tudo ir parar ao lixo para um dia mais tarde precisar de um parafuso e não ter nada. A vida tem destas coisas.
Mas afinal, porque é que sobram sempre peças quando se monta um móvel?
Acho que pode ser para prevenir que alguém perca peças ou que elas se danifiquem, assim como alguma roupa traz botões extra. Mas não deixa de ser engraçado. Para dizer a verdade acho que sempre que tento arrumar alguma divisão da casa vou encontrado peças perdidas de móveis antigos. Um dia junto tudo e hei-de construir um barco! Ou um baloiço! Ou então há-de tudo ir parar ao lixo para um dia mais tarde precisar de um parafuso e não ter nada. A vida tem destas coisas.
segunda-feira, 18 de agosto de 2014
Amigo Henrique Raposo, você fez figura
Amigo Henrique Raposo, (in)felizmente não nos conhecemos pessoalmente. No entanto, no meu direito de usufruidor da liberdade de expressão - tal como você - vou-lhe dizer a minha opinião sobre si: você fez figura de besta! Mais uma vez!
Custa-me que alguém com os seus estudos faça estas figuras. Não sou leitor assíduo do jornal Expresso, e muito menos seria pelas suas crónicas ridículas, mas sempre que leio esse semanário faço questão de saltar a página onde o seu nome figura. Será que a sua crónica é apenas um golpe de marketing? Será que você esconde um tom irónico no que escreve? Será que você fuma umas cenas maradas antes de se debruçar sobre o teclado? Digo isto porque, vamos lá a ver, 1 - a sua crónica desta semana deve ter batido recordes de vendas no Algarve; 2 - ri-me bué com este texto; 3 - se fumar brocas não causasse efeito, mais valia beber um chá de tília.
Como deve calcular, sou algarvio. Nascido e criado. E também já trabalhei e vou trabalhando na área do turismo, restauração, hotelaria. Pois, escusado será dizer que as suas palavras não me caíram bem. Não porque eu esteja a dar valor ou atenção ao que escreveu, aliás, já nem me lembro de uma frase inteira. Mas vejo nestas palavras muitos turistas que passam cá pelo meu reino. O facto de você falar mal de mim e dos meus colegas, ao generalizar e dizer que somos "antipáticos" e que "não sabem(os) receber" dá-me vontade de rir. A sério, acredite que achei piada ao seu texto. E dou-lhe crédito por isso, até porque sou algarvio e, pelas suas palavras, sou antipático e não esboço sorrisos. Você fez-me rir, não é fantástico? Ainda mais estranho será pensar que os turistas estrangeiros - e muitos portugueses - falam bem de nós pelos cotovelos. Já ouviu dizer que o Algarve é dos destinos de férias mais procurados da Europa? Sabe que muitos estrangeiros, e portugueses, adoram o Algarve e voltam cá todos os anos? Imagine só que você, com essa fraca opinião nossa, continua a insistir em passar férias neste reino que separa Portugal do Mar Mediterrâneo. Não é estranho? Mas você é um estudioso, diria até que deve ter vários diplomas emoldurados na parede do escritório, mesmo ao lado das fotos em calções de banho rosa-esbatido numa qualquer praia algarvia.
Amigo Henrique, sabe onde podia meter essa opinião ressabiada de quem foi "mal atendido"? Adivinhou, perspicaz que você é! Nunca privei consigo nem o vi sentado à mesa de um café ou restaurante. Não sei se pede meia dose de frango e uma garrafa de água de litro e meio para a família toda ou se janta filet mignon e bebe um vinho de reserva, não sei se deixa gorjeta ou se atira para cima da mesa aquelas moedas pretas que vão avolumando a carteira, não sei se explora tudo o que o Algarve tem para mostrar ou se vai para a praia às 11 da manhã e estende a toalha a dez centímetros das outras pessoas e começa a gritar atrás dos filhos enquanto todos atiram areia para as pessoas ali ao lado que estavam a desfrutar de uma boa manhã de praia. Sabe, ao contrário de si, não vou generalizar e dizer que você é daqueles com quem nós, algarvios, gozamos o verão todo e queremos ver pelas costas porque só estragam o turismo. Você até pode ser bom moce e estar apenas a desabafar de uma má aventura pelas minhas terras.
Mas a vida tem destas coisas, "paga o justo pelo pecador". Agora despeço-me porque chegou um grupo de oito portugueses que acabou de arrastar várias mesas e cadeiras de lugar como se fossem donos do bar e que estão a pedir dois cafés enquanto gritam com as crianças que querem gelados mas que os pais consideram ser caros porque estamos no Algarve e aqui cobramos um euro e meio por um Cornetto. Entretanto os clientes do lado, que também são portugueses, pediram a conta, acho que estão incomodados com os Henriques Raposos que temos cá hoje.
terça-feira, 22 de julho de 2014
O homem que não ficou para a história
Há uns tempos tive o prazer de ler uma obra de Jô Soares, um dos melhores humoristas brasileiros - uma espécie de Herman José e Jay Leno lá do Brasiú -, "O homem que matou Getúlio Vargas".
Pois bem, como é público, o ex-presidente do Brasiú suicidou-se. No entanto, Jô Soares soube criar um personagem que tinha tudo para ser um dos melhores assassinos da sua geração e que quase matou Getúlio Vargas. Muito resumidamente, o personagem principal da história quase despoletou a I Guerra Mundial, quase matou Franklin Roosevelt e esteve muito perto de matar Vargas. Fracassou sempre, com algumas trapalhadas pelo caminho. Para conhecerem as restantes peripécias, que incluem anões e mafiosos, é melhor mesmo lerem o livro. E estou a ser muito sério em relação a isto - anões, contorcionistas, assassinos, anões assassinos e contorcionistas, gajas boas!
Bem, o personagem passou ao lado de uma grande carreira e senti empatia com ele. Se fosse no cinema, ele ia matar toda a gente e salvar a sua família de um gangue de criminosos. Porém, Jô Soares não teve essa compaixão para com o pobre coitado e, página após página, continuou a gozar com a sua falta de sorte. Infelizmente, esta obra nunca será um best-seller, nunca irá valer um prémio Nobel nem tão pouco será adaptada ao cinema. Para isso precisava de mais explosões e histórias de amor. O personagem de Jô Soares é um bandido que sabe manejar espadas e fazer bombas artesanais mas que nunca verá um poster seu no quarto de um adolescente revoltado - bem ao lado de um poster dos One Direction e de um post-it a dizer "A minha vida é uma merda"!
Eu gostei e recomendo. Obrigado Jô!
Pois bem, como é público, o ex-presidente do Brasiú suicidou-se. No entanto, Jô Soares soube criar um personagem que tinha tudo para ser um dos melhores assassinos da sua geração e que quase matou Getúlio Vargas. Muito resumidamente, o personagem principal da história quase despoletou a I Guerra Mundial, quase matou Franklin Roosevelt e esteve muito perto de matar Vargas. Fracassou sempre, com algumas trapalhadas pelo caminho. Para conhecerem as restantes peripécias, que incluem anões e mafiosos, é melhor mesmo lerem o livro. E estou a ser muito sério em relação a isto - anões, contorcionistas, assassinos, anões assassinos e contorcionistas, gajas boas!
Bem, o personagem passou ao lado de uma grande carreira e senti empatia com ele. Se fosse no cinema, ele ia matar toda a gente e salvar a sua família de um gangue de criminosos. Porém, Jô Soares não teve essa compaixão para com o pobre coitado e, página após página, continuou a gozar com a sua falta de sorte. Infelizmente, esta obra nunca será um best-seller, nunca irá valer um prémio Nobel nem tão pouco será adaptada ao cinema. Para isso precisava de mais explosões e histórias de amor. O personagem de Jô Soares é um bandido que sabe manejar espadas e fazer bombas artesanais mas que nunca verá um poster seu no quarto de um adolescente revoltado - bem ao lado de um poster dos One Direction e de um post-it a dizer "A minha vida é uma merda"!
Eu gostei e recomendo. Obrigado Jô!
terça-feira, 15 de julho de 2014
Esta é para ti, Henrique
Às vezes apetece-me...
Sair à rua todo pelado.
Sair à rua só de cuecas.
Sair à varanda todo pelado.
Sair à varanda só de cuecas.
Correr pela cidade só de ténis, para não magoar os pés.
Outras vezes apetece-me ser taxista. Mas se calhar é mais perigoso que sair à rua todo pelado.
Ser taxista deve ser bom. Ou mau, se não gostarem de conduzir ou de dar ao traquejo. Mas se não gostam de conduzir, por que raio tiraram licença de taxista? Não vos percebo. Eu gosto de conduzir. E de dar ao traquejo. Quer dizer, nem sempre. Às vezes, vá.
E conduzir um "carro de praça" todo pelado? Talvez já esteja a abusar.
A última vez que passei por um táxi, cujo taxista ostentava um belo bigode e os amassos da camisa faziam adivinhar uma bela barrigota, fiquei com vontade de ser taxista. Não pelo facto de poder transportar uma rapariga jeitosa como era a sorte daquele taxista. Ou pela adrenalina de levar alguém à Damaia e poder chegar a casa só de cuecas e sem carteira.
O taxista parecia alegre, talvez estivesse a tentar explicar à rapariga, numa mistura de inglês e português, que à esquerda tinha a marina, uma das mais bonitas do Algarve, e à direita ia surgir a estátua do Infante D. Henrique. "Quem?" Perguntaria ela. "O filho do rei D. João I e um dos nomes mais importantes do início dos Descobrimentos. Aliás, a menina sabe que chamam a Lagos a Cidade dos Descobrimentos? Daqui saíram muitos barcos para aventuras em África e até para lá do Cabo Bojador. Bojador, não? Também lutou em Ceuta. Marrocos." "Oh, Marrocos, Africa, sim." "Também temos uma estátua de D. Sebastião, no centro da cidade. Também não conhece? Não faz mal, esta eu dou de graça. O rapaz não foi propriamente o nosso melhor rei. Chegou ao trono cedo demais, tinha a mania que sabia tudo e queria andar à porrada. Queria batalhas e mais batalhas. Desapareceu em Alcácer-Quibir." "Morreu em batalha?" "Olhe, ninguém sabe. Nunca mais foi visto e não existem confirmações nem da sua morte nem da sua captura nem da sua fuga. Talvez por isso se tenha tornado uma lenda. Dizem que um dia, numa noite de nevoeiro, D. Sebastião irá regressar." "E você acredita nisso?" "Sinceramente, teria a sua graça. Mas acho que ninguém vive tanto tempo, ele desapareceu no século XVII. Bem, aqui está o seu hotel. São 5,70€." "Tome dez, pode ficar com o troco." "Muito obrigado, menina. Tenha uma boa estadia."
Sair à rua todo pelado.
Sair à rua só de cuecas.
Sair à varanda todo pelado.
Sair à varanda só de cuecas.
Correr pela cidade só de ténis, para não magoar os pés.
Outras vezes apetece-me ser taxista. Mas se calhar é mais perigoso que sair à rua todo pelado.
Ser taxista deve ser bom. Ou mau, se não gostarem de conduzir ou de dar ao traquejo. Mas se não gostam de conduzir, por que raio tiraram licença de taxista? Não vos percebo. Eu gosto de conduzir. E de dar ao traquejo. Quer dizer, nem sempre. Às vezes, vá.
E conduzir um "carro de praça" todo pelado? Talvez já esteja a abusar.
A última vez que passei por um táxi, cujo taxista ostentava um belo bigode e os amassos da camisa faziam adivinhar uma bela barrigota, fiquei com vontade de ser taxista. Não pelo facto de poder transportar uma rapariga jeitosa como era a sorte daquele taxista. Ou pela adrenalina de levar alguém à Damaia e poder chegar a casa só de cuecas e sem carteira.
O taxista parecia alegre, talvez estivesse a tentar explicar à rapariga, numa mistura de inglês e português, que à esquerda tinha a marina, uma das mais bonitas do Algarve, e à direita ia surgir a estátua do Infante D. Henrique. "Quem?" Perguntaria ela. "O filho do rei D. João I e um dos nomes mais importantes do início dos Descobrimentos. Aliás, a menina sabe que chamam a Lagos a Cidade dos Descobrimentos? Daqui saíram muitos barcos para aventuras em África e até para lá do Cabo Bojador. Bojador, não? Também lutou em Ceuta. Marrocos." "Oh, Marrocos, Africa, sim." "Também temos uma estátua de D. Sebastião, no centro da cidade. Também não conhece? Não faz mal, esta eu dou de graça. O rapaz não foi propriamente o nosso melhor rei. Chegou ao trono cedo demais, tinha a mania que sabia tudo e queria andar à porrada. Queria batalhas e mais batalhas. Desapareceu em Alcácer-Quibir." "Morreu em batalha?" "Olhe, ninguém sabe. Nunca mais foi visto e não existem confirmações nem da sua morte nem da sua captura nem da sua fuga. Talvez por isso se tenha tornado uma lenda. Dizem que um dia, numa noite de nevoeiro, D. Sebastião irá regressar." "E você acredita nisso?" "Sinceramente, teria a sua graça. Mas acho que ninguém vive tanto tempo, ele desapareceu no século XVII. Bem, aqui está o seu hotel. São 5,70€." "Tome dez, pode ficar com o troco." "Muito obrigado, menina. Tenha uma boa estadia."
segunda-feira, 14 de julho de 2014
Geração "pós-Sérgio Conceição" soma primeiro título
![]() |
| Foto retirada da página https://www.facebook.com/DFBTeam?fref=ts |
Ano 2000, início de século XXI. Eu, com os meus onze aninhos, em frente à televisão a festejar uma enorme reviravolta, depois uma resposta vingativa, outra grande vitória, e outra grande vitória e só de penálti nos pararam. Mas isso pouco importa, hoje é dia da Alemanha, sem gorda, se faz favor.
Tricampeã mundial, tricampeã europeia e a defender o título continental, a selecção de Mathaus, Kahn e Bierhoff, foi vergada pela Roménia de Hagi e por uma segunda linha de Portugal onde se destacou um tal de Sérgio Conceição, com um hat-trick frente ao melhor guarda-redes do Mundo, frente à selecção campeã europeia. Seria apenas ousadia dos "pequenos", sem respeito pela Mannschaft? Seria o fim de uma selecção que lutava sempre pelo título?
"- Olha, e que tal correu o Euro?
- Epah, um empate com a Roménia, perdemos com a Inglaterra e depois levamos três de Portugal.
- Figo, Rui Costa e Nuno Gomes?
- Não, hat-trick do Sérgio.
- Quem?"
Portanto, a Federação Alemã de Futebol (DFB) decidiu dar início a uma reestruturação que começou a ser implementada em 2004, após nova fase decepcionante. A DFB impôs que todas as equipas da 1ª e 2ª Divisão tinham de possuir um centro de excelência para jovens. Depois, a Federação acompanha a evolução dos melhores jovens com base em dois aspectos principais - força física e técnica. Jogadores fortes fisicamente e tecnicamente, que saibam decidir rápido e que possam oferecer poder de choque à sua equipa. Medida à qual se juntou uma equipa de olheiros para observar jogadores jovens estrangeiros a viver na Alemanha que pudessem naturalizar-se e representar a selecção alemã, como Özil, Khedira ou Boateng. Em 2014, apenas Klose e Weidenfeller, os trintões, resistiram à diminuição da média de idades na selecção - na década de 90 a média era 29 anos e agora é 24. Lahm, Schweinsteiger e Podolski são os mais velhos da geração "pós-Sérgio Conceição" (nome carinhoso pelo qual trato os novos campeões do Mundo). O próprio Joachim Löw, que muitos gostam de classificar como mau treinador, foi o primeiro adjunto desta reestruturação e há oito anos que comanda esta geração - nunca falhou uma meia-final!
A isto considero trabalho, muito trabalho, rigor, organização. No núcleo duro da selecção, a grande maioria dos jogadores alcançou a titularidade logo à saída da selecção de Esperanças. Lahm, Schweinsteiger, Özil, Hummels, Neuer, Müller, Kroos, cimentaram o seu lugar nas camadas jovens e marcaram posição na selecção sénior. São eles o presente e o futuro da Alemanha, eles que treinam ao mais alto nível e jogam ao mais nível desde tenra idade. É também curioso reparar que nenhum jogador alemão se destaca como o melhor. Têm Neuer, Lahm, Hummels, Boateng, Howedes, Kramer, Schweinsteiger, Kroos, Özil, Müller e Klose, ainda Khedira, Götze, Schürrle, Zieler, Podolski, Draxler ou os lesionados Schmelzer, Reus, Bender e Bender. Não há um grande jogador, há vários bons jogadores que formam uma equipa implacável.
Com Kroos e Müller de saída do Bayern, podemos dizer que o Guardiola é uma besta (podemos sempre dizer que um espanhol é uma besta, mesmo sem motivos, mas futebolisticamente é estranho ver estas saídas)? Como é que o Klose, aos 36 anos, corre mais que o Postiga e o Almeida juntos? Vamos assistir a um domínio alemão no futebol mundial? Se esta fórmula é assim tão boa, onde andam as selecções jovens alemãs? Pois, amigos, tarot é com a Maya. Apenas vos digo uma coisa, este título não é "obra do acaso" e os germânicos têm aqui uma selecção para o futuro!
terça-feira, 8 de julho de 2014
Do bom tempo ao peixe real e o adeus ao Flecha
- Que bonito dia.
- É verdade, devem estar uns 26 ou 27º.
- Olha que não, hoje vai bater nos 28!
- Vi nas notícias que só amanhã chega aos 28º, hoje anda pelos 26, 27.
- Mas está vento.
- Sim. É um bocado chato.
- Mas aqui em Lagos é normal. Olha, está bom é para a pesca.
- E que sabes tu sobre isso? Nem sabes nadar.
- Ouvi um senhor a comentar. Levantou-se às 5 da manhã para ir pescar.
- E apanhou alguma coisa?
- Não sei, não o vi chegar. Mas o pai também gosta de ir à pesca.
- Nunca fui pescar, acho que não ia aguentar. Horas de cana na mão e não trazer nada para casa.
- Isso deve ser consoante as marés e o isco. Ou diz-se isca?
- Iscas é fígado. Ainda no outro dia comi. Fritas. Não é dos meus pratos favoritos mas até soube bem.
- Pois. Prefiro mesmo peixe grelhado.
- Também eu. Hoje tenho uma sardinhada ao jantar.
- Espectáculo. Peixinho grelhado com este calor, bem regado a cerveja fresca ou um bom vinho verde.
- Era bom mas estou a trabalhar e vou ser eu a servir as bebidas. Consigo comer qualquer coisa mas beber é mais difícil.
- Ah pois, tem de haver prioridades. Sabes quem também comeu peixe?
- Quem?
- Uma garoupa. Saiu em vários jornais.
- Não me digas que foi o Ronaldo?
- Não. Foram os reis de Espanha. Foram almoçar com os ilustres portugas e comeram garoupa.
- Eu tinha-lhes dado cherne. Como símbolo da democracia!
- Deixa de ser implicativo. Eles nem iam perceber.
- Olha, por falar em espanhóis, já viste que o Di Stefano morreu?
- Sim. Vi no Facebook. Também já tinha alguma idade.
- Sinceramente, nunca gostei muito dele.
- Por ser espanhol?
- Também. E por ter sido adversário do Benfica na final de 62.
- Mas o Benfica ganhou e ele nem sequer marcou nenhum golo.
- Está bem. Mas era inimigo.
- Até o Eusébio tinha admiração por ele. Estás a ser implicativo.
- E agora lá em cima era o Monstro Sagrado e o Pantera Negra juntarem-se e obrigarem o Flecha a ver essa final vezes sem conta.
- Pronto, já vi que estás de mau humor. Até amanhã.
quarta-feira, 2 de julho de 2014
Di Maria, o melhor jogador feio da actualidade
Orelhudo, magricela, desengonçado e trapalhão, Angel Di
Maria, Angelito, Di Magia, Triki Triki (alcunha que vem dos tempos em que
jogava no Rosario Central) ou Fideo (noodles, se preferirem), o 7 da
Argentina, o 22 do Real Madrid, o melhor jogador feio da actualidade.
Há uns meses lembro-me de ter lido, algures num “periodico”
do país que fica a Este de Portugal, que Di Maria achava uma injustiça não ver
o seu nome na lista de candidatos a melhor do Mundo. Por incrível que pareça,
ou talvez por ainda me lembrar das suas arrancadas pelo corredor esquerdo daquele
que foi o melhor Benfica que conheci, deu-me para concordar com ele. E hoje
ainda concordo mais.
O tímido jovem magricela que aos 19 anos chegou a Lisboa tem
feito de tudo para escrever o seu nome na história do futebol moderno. Contudo,
conquista após conquista, golo após golo, a cada assistência que efectua com os
seus magistrais passes de letra (diz o Angelito que tem mais confiança em
cruzar de letra com o pé esquerdo do que em cruzar com o pé direito), o seu
nome continua a não encher capas de jornais. Excepto em Rosario, cidade que o
viu crescer e que ainda hoje acompanha a carreira de um dos seus maiores, se
não o maior, prodígios.
Mas o Angelito nunca será um dos melhores do Mundo. Ou,
reformulando, nunca será um dos melhores do Mundo para os media porque, para
mim, já o é há muitos anos.
Para se ser um dos melhores do Mundo não basta jogar bem ou
ganhar títulos ou bater recordes. Isso são apenas gotas num oceano. Para se ser
realmente um dos melhores do Mundo é preciso que alguém diga que nós somos
bons. É preciso que se escrevam crónicas e artigos de opinião, é preciso que
alguém debata ou opine num qualquer programa onde os Freitas Lobos e Ruis
Santos desta vida debatem e opinam, é preciso que os editores coloquem os nomes
e as fotos nas capas dos jornais. Sem isso, muitos jogadores banais seriam isso
mesmo – jogadores banais. Mas Angelito não tem imagem, ninguém fala nele, é um
jogador feio. Foi o melhor jogador dos Jogos Olimpicos 2008, foi o melhor na
final da Champions de 2014, foi o melhor ontem contra a Suíça. Mas não chega. O
inútil do rato, que mais não fez em 120 minutos que um passe para golo, é
sempre o destaque, mesmo tendo esse golo saído do pé esquerdo do feio.
O feio, o tal que não merece ser considerado um dos melhores
do Mundo, ataca, defende, faz picos com e sem bola durante 90 minutos, 120 se
for o caso, passa, desmarca, desmarca-se, luta, rouba bolas, fecha espaços,
cruza, remata. Não é o melhor jogador argentino porque existe Messi, joga nos “blancos”
e aí tem o Ronaldo, é patrocinado pela Adidas e leva novamente com o rato. Talvez
se tivesse orelhas mais bonitas, ou se tivesse mais carisma, ou se desse mais
entrevistas. Jogar bem não chega para que o feio Angelito possa ser um dos
melhores do Mundo. Para mim, que gosto de ver futebol sem comentários, é dos
jogadores que mais gosto de ver, é decisivo nas suas equipas e isso basta-me.
sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014
Sonhos pela manhã
| foto "sacada" do Google, via blog intrusanacozinha |
Sonhos. Quem não tem sonhos? Sonho no sentido abstracto, ou no sentido que vocês quiserem. Sonhos. A dormir, acordados, ao pequeno-almoço com café, sonhos.
Já sonhei tanta coisa. Por norma, sonho acordado. Dormir é para descansar e repor energias. Raramente me lembro de ter passado a noite em aventuras, não consigo adivinhar o futuro enquanto ressono, não me recordo de ter caído de um escadote ou de um poço durante a noite. Sonho acordado. Sobre muita coisa, sobre tudo, sobre nada. Todos nós sonhamos, sonho eu. Fui uma criança normal, mais bonita e inteligente que as demais mas, mesmo assim, normal. Sonhava ser jogador de futebol, talvez ainda sonhe, maldita realidade que me deu dois pés esquerdos e a mania de ser dextro. Sonhava ter um Subaru Imprenza, igual aos jogos de Playstation, azul com estrelas doiradas. Já o confessei aqui neste blogue, tenho orgulho em ter sonhado ser um piloto de rallies ou apenas um azeiteiro. Sonhava ser rico e não precisar de trabalhar, descobri que não trabalhar é fácil mas o mundo capitalista não me deixa ser rico. Nota do autor: jogar no Euromilhões pode ser tentador para quem não gosta de trabalhar mas já gastei para cima de 20 euros e depois desisti.
Hoje em dia, continuo a sonhar e a viver entre sonhos. Sonho com o quê? Com tudo. Sonho com uma profissão de sonho, com várias até. Sonho com carros e mansões e vivendas e férias e viagens e idas à bola, muitas idas à bola, muitos carros, nada de Subarus. Desculpa, amigo Subaru, foste trocado por um modelo alemão que me permita vestir um fato clássico e usar óculos da Ray Ban.
Enfim, sonhos...
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